O “todes” não é só sobre gramática.
Recentemente o presidente Lula sancionou uma lei proibindo linguagem neutra em documentos oficiais do governo. Nada de “todes”, “elu” etc. O motivo oficial é manter a “clareza” e seguir a norma culta. Mas o que pode estar por trás disso?
De onde veio?
A linguagem neutra surgiu como uma forma de incluir pessoas não-binárias e trans que não se identificam com “ele/ela”. O “todes” ficou famoso justamente por tentar neutralizar o plural de forma simples. Antes disso, muita gente já tentava alternativas como @, X, “elu”, “ile”, “amigue”… O português sempre esteve em movimento — e a língua muda conforme a sociedade muda.
Qual é o problema?
Muitos acreditam (inclusive da nossa própria comunidade) que exista uma “imposição LGBT+” querendo dominar o mundo através das palavras — algo que não reflete a realidade. Outras pessoas enxergam na linguagem neutra apenas um gesto de respeito a uma parte da comunidade que é diariamente marginalizada.
A grande reflexão é: até quando todos os assuntos que orbitam a comunidade serão sempre alvo de críticas fervorosas? Estamos brigando até sobre artigos?
Eu, tu, elus e quem mais?
O dilema não é “gramática vs militância”, e sim refletir se a nossa língua deve representar todo mundo ou seguir regras antigas. E isso depende de estarmos dispostos a flexibilizar para incluir. A treta do “todes” diz menos sobre português e mais sobre como o Brasil lida com diversidade, mudança e diferença.
Interesse público?
A proibição de “todes” por Lula reacende uma questão fundamental: qual o papel da linguagem oficial do Estado? Ela deve ser meramente funcional — prezando por clareza e simplicidade — ou deve também carregar uma função simbólica e política de representação?
É curioso observar como o Governo resolveu rapidamente essa pauta, enquanto outros comunicados que envolvem vidas, desigualdades e políticas públicas continuam sem fortalecimento.


